A Eduardo Lemos

 

 

Do começo ao fim do dia,
um belo Azulão cantava, 
e o
pomar que atento ouvia
os
seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

 

Se um tico-tico e outras aves
vaiavam sua canção...
mais doce ainda se ouvia
a
flauta desse Azulão.

 

Um papagaio, surpreso
ao
ver o grande desprezo 
do
Azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e
um bando de tico-ticos 
numa
algazarra o vaiava, 
lhe perguntou: " Azulão,
olha, dize-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma
vaia 
desses
garotos joviais,
tu continuas gorjeando,
e
cada vez cantas mais?!"

 

Numas volatas sonoras,
o
Azulão lhe respondeu:
"
Caro Amigo! Eu prezo muito
esta
garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

 

Quando pouco, eu descantava,
pensando
não ser ouvido 
nestes
matos por ninguém,
um Sabiá que me escutava,
num capoeirão , escondido,
gritou de
: "- Meu colega,
bravos!....Bravos!...Muito bem" .

 

Pergunto agora a você:

Quem foi um dia aplaudido

pelo príncipe dos cantos,

de celestes harmonias,

irmão de Gonçalves Dias

um dos cantores mais ricos ...  
-que
caso pode fazer
das
vaias dos tico-ticos?!" 

 

(In: Poemas Escolhidos - Livraria PARA TODOS -RJ-  4ª edição,  p. 326  ) sem data

 

 

 

 

Atualizada em 10/07/2010

 

 

Imagem de Rusty Rust

Mask: Denise Worisch

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